Sou organizada,
arquivo minhas dores.
Já arquivei muitas.
Vez por outra,
desarquivo uma ...
Algumas permanecem arquivadas
exclusivamente porque já foram dores e,
dores são dores,
tenho-lhes o devido respeito.
Tenho algumas que nem toco,
pois tenho pavor de estragá-las.
Deixo-as como estavam no
dia do arquivamento,
intactas ...
Tenho muitas dores arruaceiras,
escandalosas,
dessas que a gente morre
de vergonha quando aparecem.
Mas é evidente que tenho outras,
completamente diferentes,
caladas.
Dessas não gosto ...
Algumas são delicadíssimas,
a dor do primeiro amor desfeito,
é um bom exemplo.
Tenho uma dor bem interessante,
eu diria até que,
inusitada,
uma dor desafinada.
Ora, porque da surpresa?
Paixão solitária dá nisso,
impossível harmonizar ...
Sem qualquer constrangimento,
confesso: tenho uma dor ... brega.
Isso mesmo ...
E quem não tem pelo menos uma?
A minha dor de cotovelo
está na terceira gaveta,
já esteve mais acessível
mas ainda está lá,
É bem grande esse meu arquivo ...
Tenho até dor em ordem alfabética ...
É um arquivo, organizado.
Quer dizer, mais ou menos ...
É, eu tenho uma dor instável ...
Já tentei fazê-la desaparecer,
mas é voluntariosa,
tem vida própria.
Uma vez rasguei-a em pedacinhos,
adiantou ???
Não ...
Mal abri a primeira gaveta,
lá estava ela,
multiplicada ...
Arquiva-se e desarquiva-se,
como e quando quer e,
mais, mistura-se com as outras.
Apareceu de tanto eu
abrir e fechar a gaveta.
Difícil lidar com ela.
Desisti ...
O Nome dessa dor é
"Saudade ..."
Resolvi fazer dela uma amiga ...
Essa dor ... vai comigo
sempre morar ...
Sandra Falconi